Lion

Dezembro 13, 2016

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Fui ver filmes, claro. Do mais o menos. Lion.

Os filmes baseados em factos verídicos deixam-me no limbo entre géneros.

Verdade ou consequência?

A consequência é que foi um filme sofrível, a indústria que gosta de produzir o sofrimento acabou por ficar muito aquém. Abatanados os americanos.

Nem a Nicole Kidman que em bicos de pé tentou alcançar a personagem, ficou-se pela mera interpretação da realidade e, não foi pura coincidência.

Rooney Mara a miúda de Carol, tentou tanto ajudar Dev Patel, mas o ex milionário não foi favorecido com este papel.

Na minha Ruteoria o filme está todo incompleto, se Garth Davis queria pegar nestes temas, tinha que os agarrar pelos cornos.

Ficou pela parra e nem se viu uma uva.

Perdeu muito tempo a filmar um puto ranhoso perdido na rua, sem retirar-nos nunca da zona de conforto.

Foi arrogante e paternalista a filmar, cortou, e foi cobarde a realizar.

Eu teria preferido a brutalidade da violação, a morte do irmão, a traição na relação amorosa, a destruição dos pais, sei lá, vidros partidos, pelo menos do leão o rugido.

Mas não.

Entrei e saí com o tecto intacto.

Lion é um bluff, o filme está todo viciado!

 

Tamada

Dezembro 7, 2016

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Agradeço sempre o que as árvores me trazem.

Na eloquência de uma palestra senti-me regalada, como se Tamada tivesse descido e subido no tempo, para numa perspicácia precisa e humilde evocar a celebração.

Fiquei, naquela hora de Baco, presente.

Rodeada de uma riqueza arqueológica, dizer que houve generosidade no brinde é dizer muito pouco do brindado.

Elevou-se em mim Dionísio, o Baco, Lesbos Enorches e Denditres esse das árvores e do Teatro.

Eleutherius, liberto-me!

Contemplo ainda lá do Olimpo de copo erguido a densidade única de cada casta.

A Ruteoria fica empírica na etimologia, Húmus, a terra, terra fértil, aquele que nasce da terra.

Humilis,  fico no chão e

Brindo

Viva

Ela

Novembro 23, 2016

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Ela, o filme, é o instinto básico de Paul Verhoeven.

É o filme do ano. De muitos anos, eu acho.

Não querendo desvendar quase nada, no Ruteorias tapa-se o sol com a peneira.

Procura-se nos buracos de luz, a sombra do mostro que há em nós.

Realmente estive lá eu com ela, a outra de mim, que adormecida, vive.

Como se estivesse ali mesmo ao meu lado, pronta a sair a qualquer momento, num só suspiro a sociopatia, num piscar de olhos a psicopatia, num gesto mais forte ou num forte grito uma patologia mental.

O desarranjo mental foi tal que se tornou comedia toda aquela exagerada e verosímil erótico-tragédia.

Há violação, traição, matança, herança, aceitação, alienação, masturbação perturbação, admiração, estupefacção.

É um filme que nos descobre a negra zona erógena, libertando-nos da fantasia.

Accção!

Há sexo à bruta, há a ficção real e virtual, a humana possível.

Uma excitação assumida na primeira pessoa acompanhada pelas mãos d’ Ela.

Isabelle Huppert é soberba. É simples, ela toca piano e fala francês.

Toca.

Ela é brutal, bestial, toca a dela e a minha.

A Ela de Paul Verhoeven é dele, é dela é minha e de quem a apanhar.

Ohhhh simmmmmm

Post-truth

Novembro 20, 2016

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Post-truth.

A sério? A palavra Oxford do ano?

Na definição dada pelo britânico dicionário ao adjectivo que faz referência a

“ circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”.

Trampa.

Recordo que o mesmo dicionário escolheu um emoji em 2015 e já agora que a Academia Sueca deu o Nobel da Literatura a Bob Dylan.

Admiraram-se que os americanos votassem Trump?

Ruteorias é sincera desde que o fado foi considerado património imaterial da humanidade, nunca mais o mundo rodou da mesma forma.

Veio o chocalho, foi o Davod Bowie, o Prince e agora o Cohen.

Já nada me choca.

Vá lá, isso tem sido brincadeira de meninos, ainda se materializam em conceitos?

Eu aqui na Ruteorias já ando ao nível do arroto, do espirro e do flato. Pum.

Santinha.

Há muito que já perdi o pio, já só falo em teclados, o eyecontact só na plataforma com aplicação de WhatsApp.

Numa ruteoria de pos-verdade o facto objectivo é que a diferença entre este post e uma balde de merda, é o balde!

Mas isso tem menos influência na opinião dos meus leitores do que o apelo emocional que a merda da palavra provoca.

LOL

azul,limpo

Novembro 16, 2016

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Venho aqui num instante fazer estragos na praça pública.

Adoro andar na rede a ver as bancas da fruta, sou freguesa consumidora de toda a banha de cobra que me vendem.

Não sou boa freguesa, isso sabem bem os meus vizinhos.

Mas, andam mesmo a pedi-las.

O mundo está perdido.

Eu sou vocês!

Yes je suis!

Levanto-me cedo, pela manhã, para esfregar bem o meu lugar de mercado, apresentando belos produtos na pedra lavada.

Enganem-se ou desenganem-se, vinguem-se em mim.

As bandeiras que ergo para combater são exactamente as mesmas que servem para me derrubar.

Ergo sunt, cogito. Deixo para depois.

Não há volta a dar.

A minha fruta tem bicho por dentro, a carne está cheia de tóxicas hormonas e os enlatados já estão fora do prazo.

Na pressa de me salvar, penduro em todos os murais frases motivacionais, canções e outras faixas de valores morais.

Enganem-se ou desenganem-se, viguem-se em mim.

Eu sou o sujo ladrão, que canto a canção do bandido, a cantiga de amigo, e do amor…

Do amor?

Canto escárnio e mal dizer a eito, rindo a bandeiras despregadas.

Ahahahaah ahahahahahaha

Sou um trovador antigo, de amor impossível, perdido de sofrimento.

Sou o animal ferido, arrependido.

Na feira, cheiro a ruim, apodrecido.

Todo fedido.

Argh

 

Donald Trump

Novembro 10, 2016

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Tinha que vir a besta defender a besta.

Nada de grande elaboração intelectual, ruteorias whatelse?

Ouvi, li, partilhei em barda, como todos os mortais, a opinião dos especializados, jornalistas, politólogos, filósofos, comentadores, professores, economistas, académicos e outros mentirosos.

Trump não iria ganhar.

Andei de distracção em distracção a rir-me do monstro.

Alimentei-o.

Normalmente tenho ruteorias de ficção, filmes, livros, músicas, sou consumidora da cultura, do american lifestyle.

Mas era tal a euforia em rede que esqueci-me que não era eleitora, tive direito a partilhar, gostar e cantar Go Hillary.

Mas não tinha o direito de votar.

Shame on me.

Ignorei todos os americanos votantes que me disseram que não conseguiam votar Clinton.

Critiquei os porcos dos taxistas que insistiam em dizer-me que eles, os americanos, não gostavam da Hillary.

Fugi da besta, alucinada com a opinion dos media, deixei-me ir no brain wash low cost.

Mantive-me em sono R.E.M , num movimento rápido dos olhos.

No sono paradoxal, paralisada, com o cérebro a bloquear-me os neurónios, a sonhar o american dream.

Wake up América!

Congratulations Mr. President

 

Finados

Novembro 1, 2016

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Neste fino dia de finados lembro-me do mistério da árvore de Raul Brandão.

Sinto-me pedinte, mendigando ainda dos mortos o quente.

Vivam.

Flutuo por entre as árvores, como se as raízes me levassem abaixo do chão, aos meus mortos.

Profundamente encontro-me nas vividas cores naturais, do silêncio ensurdecedor agarro-me a cada ínfimo som, sopro de vento.

Vivo cada sorriso, o brilho dos teu olhar encharcado nas ondas do mar.

Dobro e desdobro o reverso na esperança de decifrar em mim o código genético, levar a mensagem.

Volto à Olaia de S. Vicente, na minha ruteoria, a mesma árvore misteriosa de Raul Brandão, resgato-a da forca com uma, só, cedilha.

Força!

Viva.

definitivo

Outubro 31, 2016

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Dos livros para a vida real é um salto. A existência tem sempre uma fina poeira de ficção em cada acção.

Uma ruteoria pura e dura, daquelas que se repetem no tempo até ao fim, com a convicção da sua veracidade.

Desconheço-me, enfim.

Como se tivesse estado em hibernação.

Convoco Kafka e o seu escaravelho, reúno-me com ele na condição e fragilidade humana e reduzo-me a um minúsculo animal.

Prefiro sentir metamorfose a granel, o pormenor de um ínfimo monstro gravado na pele.

Houve um dia certo, em que também acordei com o formigueiro no corpo.

Viva

Arvens

Outubro 27, 2016

Salvem a olaia de São Vicente de fora

por um fio

Outubro 10, 2016

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Há muitos filmes, várias salas, mas só duas cadeiras a minha e a que está ao lado.

Esta minha frase é uma metáfora.

Escrevendo-a aqui na ruteorias deixa de me pertencer.

Como todos os filmes, Loucamente, Capitão Fantástico e A Rapariga no comboio pertencem-me.

Já foram.

Permanecem algures numa fugida, partida e largada dentro de mim.

Em cada sopro sinto sempre aquela respiração de quem vê a fita nos filmes.

Não os vou dividir em caixas nem caixotes, coloco-os todos numa mala de viagem.

Parecem ir todos descalços à fonte, como a Leonor de Camões, formosa mas não segura.

Dizer nada.

Chega um tempo em que o suspiro de alegre passa a triste.

Da utopia para o bipolar, da violência até ao vício mais humano.

No cinema, como numa sala de espera, sento-me na cadeira e aguardo.

Aquele instante insuportável.


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