La La Land

Janeiro 30, 2017

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Não sou grande fã de musicais, mas gosto de ver filmes, mesmo quando são musicais.

La La Land é um musical a não perder.

Reflecte o momento que vivemos. Uma completa musica dançada entre o sonho e a realidade.

Déjà vu que ainda não tinha visto no entretenimento de salão.

Na minha Ruteoria empírica a sala nem tugiu nem mugiu, parou a respiração para ver e ouvir a melodia de amor, ficou um palmo acima do chão, out of the blue.

Se este filme fosse uma cor, era azul. Todos os tons de azul.

Numa velocidade frenética pintou a tela à pistola, sem um único borrão.

Estranhei a limpeza e destreza, não gosto de performances prefeitas fabricadas na pós-produção. Notei tudo do princípio ao fim.

Pode ser precipitado, mas mesmo com tudo o que não gostei em La La Land, talvez até por isso, posso ter-me tornado numa fã incondicional do género.

Estar e não estar na ficção.

Eis a minha sensação.

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Manchester by the sea

Janeiro 25, 2017

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Fui à pesca.

Nas salas de cinema pode sempre acontecer o inesperado.

Manchester by the sea, sei agora, nomeado para melhor filme, é imprevisível.

Apesar de estarmos lá, afinal estamos permanentemente em desassossego.

Houvesse porventura um filme da minha vida, como tantas vezes acreditei, então Manchester by the sea destruiu essa fé.

Porquê?

São ilimitadas as possibilidades da minha vida.

Já tantas vezes, aqui em Ruteorias, discorri sobre a capacidade mágica e artística da tela se transformar em espelho onde vemos projectadas imagens da nossa vida.

O que aconteceu neste filme foi mais do que isso.

Foi assustador.

A história da minha vida não aconteceu exactamente, tal igual, eu sempre a pensei.

Posso exagerar tudo e abusar do overwriting e mesmo assim fico aquém do além que Kenneth Lonergan me proporcionou.

Foi uma regra de três simples.

Casey Affleck está para o filme assim como eu estou para x.

Vão ver o filme e resolvam:

A nossa própria vida é uma incógnita.

Kusturica

Janeiro 5, 2017

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E ao terceiro dia conforme as escrituras subi Na Via Láctea (On the milky Road). Como costureira à moda antiga vou alinhavar antes da primeira prova.

Logo no título a referência a Buñuel. Até no tempo Kusturica evoca o mestre surrealista.

Não percebo nada de filmes, a minha arte é a costura.

Vi, no princípio do filme, pano para mangas! Mas depois com aquele esplêndido tecido feito de rico fio, caiu a nódoa e acabou tudo num belo emaranhado de desperdício.

Se é exagero meu?

Talvez seja, mas como já ando nisto há tempo, já não pego em qualquer peça.

Na minha Ruteoria Kusturica começou muito bem o filme e depois perdeu a mão, e perdeu-a tanto que nunca mais a agarrou.

Gostei muito de ter visto o filme, ponto assente!

Não tenho a certeza da escolha de Mónica Bellucci, levei o filme todo nesta dúvida, se era essa a intenção do realizador, conseguiu!

Monica Bellucci não é uma actriz, Emir Kusturica não é um actor.

Alinhavo dado!

Mas então, teve essa vantagem à custa de ter perdido a espectadora da surreal ficção.

Prova feita.

Dou assim ponto por ponto vários rasgos de brilhantes cenas, o relógio, a campeã de ginástica, os ovos, o porco, o falcão, as cobras e os demais animais que com música foram orquestrando uma estapafurdice total.

Mas planos de génio só os gansos a aterrar na banheira de sangue e a noiva a correr pelo prado com o leite derramado.

Duas cenas não chegam para fazer um filme, nem para uma curta ou sequer para um spot publicitário.

Segunda Prova.

Não vou bater muito mais no mesmo ponto, nem posso dizer que esperava mais de Kusturica, mas queria uma longa metragem.

On The milky Road serve para separar o trigo do joio.

Não preciso de ir tão longe, não é genial, nem tão pouco original, Kusturica tornou-se comercial.

Choveu no molhado e nem sequer chorou no leite derramado, shame on him!

Eu que faço por medida, renovo a minha admiração pela alta costura, genial o clássico corte de Buñuel ou o contemporâneo de Almodovar

E a costura já vai longa e preciso rematar.

Consigo perdoar quase todas as falhas aos artistas, custa-me, Kusturica, a falta de humildade.

Fato acabado.

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Janeiro 1, 2017

E assim terminou o último dia de 2016, natural.

Se a natureza soubesse que dividíamos o tempo em anos, os anos em meses e os messes em dias.

Que para cúmulo artificial ainda cortássemos os dias em horas e as horas em minutos.

Riria de nós cada onda que leva o seu tempo a chegar à praia sem cumprir horário nem picar o ponto.

O sol, a estrela mor, que cumpre sempre horas extraordinárias fizesse sempre os dias iguais e nem se fazia notar, quanto mais encantar.

Soubessem os passarinhos dos nossos rígidos horários e nem conseguiriam rasar em voos matinais.

Parem o tique e o tac, sintam a pulsação animal, peço aos senhores Deuses da natureza humana!

Que a força de cada momento natural permaneça em nós ardente sem o fogo do artifício.

Na Ruteoria não há princípio nem fim, cada dia circula livre.

Sem fazer de conta.

Viva

mais tempo!

Pré-natal

Dezembro 24, 2016

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Diz que é Natal. Aqui na Ruteorias celebra-se o presente nas palhinhas com o menino sentado.

Do fardo, prefiro a palha.

Saibam que o primeiro presépio foi montado pelo S. Francisco de Assis, ao vivo e a cores, com pessoas e animais.

Adoro ver presépios, este ano fui às Amoreiras, subi a nave na escadaria principal.

Aterrei na rebeldia de criança, fascinada pela cidade figurada, tudo a trabalhar naquela cidade tão distante.

Contraste enorme com o circo comercial do consumismo moderno.

Embrulhem.

Só me apetece roubar ao espaço cada peça daquele tempo, até ao lago atirei com moedas para que comprassem os meus desejos.

Sim, veio o espírito natalício e concedeu-me o artifício.

E como nos contos de Natal, inverteram-se os papeis, apareceu um bebé verdadeiro, e foi ali naquele degrau que eu pressenti o Natal

Feliz.

Lion

Dezembro 13, 2016

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Fui ver filmes, claro. Do mais o menos. Lion.

Os filmes baseados em factos verídicos deixam-me no limbo entre géneros.

Verdade ou consequência?

A consequência é que foi um filme sofrível, a indústria que gosta de produzir o sofrimento acabou por ficar muito aquém. Abatanados os americanos.

Nem a Nicole Kidman que em bicos de pé tentou alcançar a personagem, ficou-se pela mera interpretação da realidade e, não foi pura coincidência.

Rooney Mara a miúda de Carol, tentou tanto ajudar Dev Patel, mas o ex milionário não foi favorecido com este papel.

Na minha Ruteoria o filme está todo incompleto, se Garth Davis queria pegar nestes temas, tinha que os agarrar pelos cornos.

Ficou pela parra e nem se viu uma uva.

Perdeu muito tempo a filmar um puto ranhoso perdido na rua, sem retirar-nos nunca da zona de conforto.

Foi arrogante e paternalista a filmar, cortou, e foi cobarde a realizar.

Eu teria preferido a brutalidade da violação, a morte do irmão, a traição na relação amorosa, a destruição dos pais, sei lá, vidros partidos, pelo menos do leão o rugido.

Mas não.

Entrei e saí com o tecto intacto.

Lion é um bluff, o filme está todo viciado!

 

Tamada

Dezembro 7, 2016

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Agradeço sempre o que as árvores me trazem.

Na eloquência de uma palestra senti-me regalada, como se Tamada tivesse descido e subido no tempo, para numa perspicácia precisa e humilde evocar a celebração.

Fiquei, naquela hora de Baco, presente.

Rodeada de uma riqueza arqueológica, dizer que houve generosidade no brinde é dizer muito pouco do brindado.

Elevou-se em mim Dionísio, o Baco, Lesbos Enorches e Denditres esse das árvores e do Teatro.

Eleutherius, liberto-me!

Contemplo ainda lá do Olimpo de copo erguido a densidade única de cada casta.

A Ruteoria fica empírica na etimologia, Húmus, a terra, terra fértil, aquele que nasce da terra.

Humilis,  fico no chão e

Brindo

Viva

Ela

Novembro 23, 2016

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Ela, o filme, é o instinto básico de Paul Verhoeven.

É o filme do ano. De muitos anos, eu acho.

Não querendo desvendar quase nada, no Ruteorias tapa-se o sol com a peneira.

Procura-se nos buracos de luz, a sombra do mostro que há em nós.

Realmente estive lá eu com ela, a outra de mim, que adormecida, vive.

Como se estivesse ali mesmo ao meu lado, pronta a sair a qualquer momento, num só suspiro a sociopatia, num piscar de olhos a psicopatia, num gesto mais forte ou num forte grito uma patologia mental.

O desarranjo mental foi tal que se tornou comedia toda aquela exagerada e verosímil erótico-tragédia.

Há violação, traição, matança, herança, aceitação, alienação, masturbação perturbação, admiração, estupefacção.

É um filme que nos descobre a negra zona erógena, libertando-nos da fantasia.

Accção!

Há sexo à bruta, há a ficção real e virtual, a humana possível.

Uma excitação assumida na primeira pessoa acompanhada pelas mãos d’ Ela.

Isabelle Huppert é soberba. É simples, ela toca piano e fala francês.

Toca.

Ela é brutal, bestial, toca a dela e a minha.

A Ela de Paul Verhoeven é dele, é dela é minha e de quem a apanhar.

Ohhhh simmmmmm

Post-truth

Novembro 20, 2016

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Post-truth.

A sério? A palavra Oxford do ano?

Na definição dada pelo britânico dicionário ao adjectivo que faz referência a

“ circunstâncias em que os factos objectivos têm menos influência na opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”.

Trampa.

Recordo que o mesmo dicionário escolheu um emoji em 2015 e já agora que a Academia Sueca deu o Nobel da Literatura a Bob Dylan.

Admiraram-se que os americanos votassem Trump?

Ruteorias é sincera desde que o fado foi considerado património imaterial da humanidade, nunca mais o mundo rodou da mesma forma.

Veio o chocalho, foi o Davod Bowie, o Prince e agora o Cohen.

Já nada me choca.

Vá lá, isso tem sido brincadeira de meninos, ainda se materializam em conceitos?

Eu aqui na Ruteorias já ando ao nível do arroto, do espirro e do flato. Pum.

Santinha.

Há muito que já perdi o pio, já só falo em teclados, o eyecontact só na plataforma com aplicação de WhatsApp.

Numa ruteoria de pos-verdade o facto objectivo é que a diferença entre este post e uma balde de merda, é o balde!

Mas isso tem menos influência na opinião dos meus leitores do que o apelo emocional que a merda da palavra provoca.

LOL

azul,limpo

Novembro 16, 2016

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Venho aqui num instante fazer estragos na praça pública.

Adoro andar na rede a ver as bancas da fruta, sou freguesa consumidora de toda a banha de cobra que me vendem.

Não sou boa freguesa, isso sabem bem os meus vizinhos.

Mas, andam mesmo a pedi-las.

O mundo está perdido.

Eu sou vocês!

Yes je suis!

Levanto-me cedo, pela manhã, para esfregar bem o meu lugar de mercado, apresentando belos produtos na pedra lavada.

Enganem-se ou desenganem-se, vinguem-se em mim.

As bandeiras que ergo para combater são exactamente as mesmas que servem para me derrubar.

Ergo sunt, cogito. Deixo para depois.

Não há volta a dar.

A minha fruta tem bicho por dentro, a carne está cheia de tóxicas hormonas e os enlatados já estão fora do prazo.

Na pressa de me salvar, penduro em todos os murais frases motivacionais, canções e outras faixas de valores morais.

Enganem-se ou desenganem-se, viguem-se em mim.

Eu sou o sujo ladrão, que canto a canção do bandido, a cantiga de amigo, e do amor…

Do amor?

Canto escárnio e mal dizer a eito, rindo a bandeiras despregadas.

Ahahahaah ahahahahahaha

Sou um trovador antigo, de amor impossível, perdido de sofrimento.

Sou o animal ferido, arrependido.

Na feira, cheiro a ruim, apodrecido.

Todo fedido.

Argh

 


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