O meu belo Sol interior

Dezembro 30, 2017

266725.jpg-c_215_290_x-f_jpg-q_x-xxyxx

Dou por mim com uma mania que se tem acentuado nos últimos filmes.

Dá-me um síndrome de directora de casting.

Explico.

Começo a ver as várias actrizes a desempenhar os diferentes papéis.

Neste caso, descartei logo Isabelle Huppert, mas não me perguntem porquê? só via a Júlia Roberts para não falar da Sharon Stone que certamente lhe assentaria muito bem.

Juliette Binoche dá corpo ao manifesto – o amor.

Não é só nos diálogos, é nos gestos, nos silêncios e sobretudo no corpo, o olhar a voz desta personagem, Isabelle, somos nós.

São eles, os amantes dela.

A mais bela certeza do amor, de não saber o que dizer, quando, onde e porquê…como se cada detalhe fosse um acaso in progress.

Mas na minha Ruteoria a estrela é Claire Denis, a realizadora que me deixou desconfortável, desconstruída e perdida: “open”.

Depois deste sol, o meu belo interior.

Aceito toda e qualquer ousadia cinematográfica, erótico/pornográfica, porque,

Denis não adaptou os fragmentos de um discurso amoroso de Barthes,

Claire Denis, realizou-os.

Anúncios

A casa da sorte

Dezembro 28, 2017

IMG_0105

Temos sempre como garantido que as nossa jóias são de valor.

Começou assim a narrativa à lapa.

Os nossos amigos são os verdadeiros diamantes, brutos, é brutal.

Começou ao som do que há de melhor, sem vergonha fomos dançando em coreografia de batata assada.

Reunido o grupo, demos às mãos as graças. Rimos a bandeiras despregadas.

Abusámos umas das amizades das outras.

Naquele condomínio tudo é preciso, necessário e rigoroso.

Todas diferentes, cada vez mais iguais, fomos libertando as asas no recreio sem receio, com desapego no tópico, procurámos amores perdidos em zonas de conforto, seguindo estrelas marcadas.

Foi uma reunião magnífica. Brincámos aos príncipes e princesas e até comemos tudo cortado.

Misturaram-se as tintas, e não nos caíram os parentes na lama.

Nesta rede social, sem estudos, mas com tecnologia de ponta, fomos desenhando a grupeta improvável.

A Rosa agradecida, já deu o sinal, fica em lista de espera até a próxima casa vagar.

E quando chegou a hora de partir, foi a grande jogada,

desceu no tabuleiro em grande estilo, com as quatro damas do baralho.

Estas Rainhas, suas altezas, são reais!

 

Figueira

Dezembro 26, 2017

IMG_0071

Ando enferrujada da pluma. Sim houve festa no quartel, reuniu-se a tropa e marchou para sul.

Foi Natal, passou mais um a somar ao último.

Os soldadinhos cresceram tanto que olhando para os meus galões já nem consigo puxar.

Ainda conseguiu o mano repetir a façanha e com tiro certeiro acertar na tal lógica do gene.

A árvore, sempre a árvore!

Uma figueira que outrora já foi também a nossa casa.

Agora aqueceu-me as mãos, quando a plantei, cavei fundo o buraco para que cresça bem e saudável.

Qualquer dia lá pelo jardim são só arvores plantadas por mim.

Dizem que é preciso, fazer um filho, escrever um livro e plantar uma.

Já tá.

Venha o Verão, depois da Primavera, e seguidamente o Outono, antes do Inverno.

Uma teoria de tempo ou um tempo de uma teoria?

 

Fig tree

I’m rusty with the pen. Yes, there was a party in the barracks, the troops gathered and marched south.

It was Christmas, spent another to add to the last.

The soldiers grew so much that looking for my gallons already can not even pull them.

My bro still managed to repeat the feat and with accurate shot hit the logic of the gene.

The tree, always the tree!

A fig tree that once was also our home.

Now warmed my hands, when planted, dug deep the hole to grow well and healthy.

Any day there are only trees in the garden planted by me.

They say you need to make a child, write a book and plant a tree.

That ‘s it.

Come the summer after the spring, and then the autumn before the winter.

A theory of time or a time of a theory?

120 batidas por minuto

Dezembro 20, 2017

Unknown

Mais uma investida no cinema. 120 batidas por minuto é um filme brutal, bestial. Mostra a bela e o monstro da vida. A violência está sempre no outro lado.

É um livro de instruções do activismo, sobre a urgência de cada acção, um manual perfeito de boa práticas.

Sempre o tempo, a conjugar-nos na aproximação a cada espaço emocional, a dor, a paixão, até o peso dos corpos, a leveza do ser. A natureza.

Em cada arremesso de sangue falso, uma verdadeira mancha humana.

O movimento, ACT UP, agrupando forças distintas num momento comum.

Os uns e os outros, a minoria amorfa dos decisores na sua lenta compreensão de uma realidade veloz, voraz.

Que a história não se repita, parece ser uma espécie de voz off na nossa cabeça, cada olhar, gesto, grito, apito leva-nos para um campo concentrado de eficácia extrema.

Ficamos em cada uma e em todas as 120 batidas, mais vivos, ligados, activos, como se cada minuto de cada um de nós contasse para cada minuto de nós todos.

Estranho?

Sim, o silêncio não pode ser um opção.

 

One more thriller in the movies. 120 beats per minute is a brutal, bestial movie. It shows the beauty and the monster of life. Violence is always on the other side.
It is an activism instruction book, about the urgency of every action, a perfect manual of good practice.
Always the time, to conjugate us in the approach to each emotional space, the pain, the passion, even the weight of the bodies, the lightness of the being. The nature.
In every false bloodshot, a real human stain.
The movement, ACT UP, grouping distinct forces in a common moment.
The one and the other, the amorphous minority of decision makers in their slow realization of a fast, voracious reality.
That the story does not repeat itself, seems to be a kind of voice off in our head, every look, gesture, cry, whistle takes us to a concentrated field of extreme effectiveness.
We stayed in each and every 120 beats, more alive, connected, active, as if every minute of each of us counted for every minute of us all.
Weird?
Yes, silence can not be an option.

queen

Dezembro 7, 2017

images-13

Já tinha deixado esta mesa de jogo, mas como dizemos os viciados, somos jogadores para sempre.

Não voltei sob a pressão das redes sociais, vim de livre e espontânea vontade.

Olho em volta e depois para a minha mão:

– Só me apetece fazer bluff.

Como se tivesse um grande jogo, nem às, nem rei, nem cavalheiro.

Tenho apenas a figura de uma dama, um três de paus e quatro de ouros.

Aposto tudo. Atiro as fichas todas para cima da mesa.

E é neste movimento libertador que me denuncio.

Overacting é a ganância do artista, cedo.

Perco tudo, lanço as cartas para a mesa e mando tudo para o baralho!

Voltei

*aceitam-se encomendas, reclamações e outras sugestões

Salvador Sobral

Maio 15, 2017

vip-pt-25168-noticia-salvador-sobral-se-amanha-morrer-morro-super-feliz-diz-sobre-doenca-de-coracao

Muito tem acontecido lá fora, no mundo real.

Pouco tempo tem havido para vir aqui plantar e procriar.

Pedem-me os cultores para tecer considerações sobre o Sobral.

Fácil.

Como a carneirada rendi-me, sempre na primeira fila, primeiro para aplaudir e depois para criticar.

Quer o mundo em rede que sejamos rápidos, as caixas e os comentários, são como duelos – mortais.

Matar ou morrer.

Amar, insistiram os Sobral.

Aqui na Ruteorias respeitamos a natureza, cultivamos conforme o tempo.

Tem sido um festival de opiniões, uma praga de ideias e soluções, hoje, qualquer fraseado engraçado, como ervas daninhas, facilmente se torna viral.

Criativo, original, genuíno.

Simples, Portugal:

Salvador Sobral, eu sou.

Teatro

Março 28, 2017

48123-ida-rubinstein-1912-portrait-hprints-com

Dois homens todos nus.

Brilhante interpretação deste texto escrito no original por Sébastien Thiéry.

Miguel Guilherme esteve no seu melhor, no ensaio solidário.

Procurem, os meus leitores, saber do que trata a peça e vão lá ao Teatro assistir a um cocktail de géneros muito bem esgalhado.

Não se ficou o autor pela farsa, tão nosso conhecido género em toda a filmografia, aliás, Miguel Guilherme é o actor que ousou ser Anastácio de António Silva.

Aqui ele consegue, como sempre, uma personagem provável, para o absurdo da comédia de situação criada nesta complexa peça.

Na minha Ruteoria somos levados pela mão numa visita guiada ao itinerário moralista/burguês da sexualidade.

É brilhante! No Villaret.

Já numa outra sala, continuando a visita pela sexualidade, no Teatro Nacional D. Maria II, fui ver um outro “ensaio”, de Mónica Calle.

Tinha muitos corpos nus despidos de personagem, não querendo estender a todo o elenco, vou focar-me na Mónica Calle:

Ensaio para uma cartografia tinha tudo para ser uma performance, falhou em quase tudo.

O discurso no princípio da peça, não foi um tiro no pé.

Foi um suicídio! Digo mais.

Foi um homicídio seguido de suicídio, um crime.

Um criador que explica a sua obra a priori retira a liberdade ao espectador, é um “mestre ignorante”.

Na minha experiência pessoal, de “espectadora emancipada”, esta peça não me engajou, não serviu portanto o propósito da arte. Não estabeleceu uma ligação.

Mónica Calle quebrou essa possibilidade, ofendeu até a sua  primeira referência, Ida Rubinstein.

Se me queria seduzir, como espectador, pecou por excesso.

Se me queria conquistar como mulher pecou por defeito.

É um espectáculo com pormenores que até poderiam ser interessantes do ponto de vista artístico, mas que por culpa da cabeça perturbada de Mónica Calle, transformaram-se em pormaiores aborrecidos e difíceis de aceitar.

Esta obsessão foi compulsiva, na repetição destruiu aquilo que Bolero de Ravel criou com originalidade – o incansável!

Sinto contudo uma certa simpatia por quase todas as actrizes em palco cuja ética e performance serviram a arte.

Merda

 

Salvador

Março 16, 2017

salvador-e-luisa-sobral-320x200

Bem aventurado mundo digital.

Estivéssemos na idade anterior e teria sido todo um outro festival.

Aproveito o bico do naperon para tapar a câmara do meu LCD Samsung, não vá o Big Brother americano espiar-me.

Já não tenho a espanhola a dançar e a tocar castanholas de resto parece tudo de volta a 1984.

A Lena D’água a cantar, olé!

Eu a ver o festival, por acaso dos acasos quando liguei a TV estava o Salvador a cantar, assim que o ouvi, eu que sou dura de ouvido, pensei logo, vai ganhar!

Agora vou recorrer à analepse.

Um dia ao ouvir rádio ouvi também uma música que gostei, fiz o Shazan e era a Luísa Sobral.

Curti a música dela.

Num concerto na Praça do Município a ver o António Zambujo lá estava a Luísa Sobral a cantar e numa performance extraordinária fez um dueto espectacular.

Com o humor nas palavras que trocou com Zambujo, arrebatou-me.

Fiquei fã, comprei o cd e ouvi como se não houvesse amanhã.

Quando o amanhã chegou ficou o cd perdido entre carros.

Até que chegou o Salvador, o irmão Sobral, fui ao Youtube e convenci-me.

Era ganhador, o Salvador.

Podem dizer o que quiserem em caixas de comentários, mas aqui na minha Ruteoria o Salvador e a Luísa Sobral são diferentes, têm um espírito original, são sóbrios, honestos cantam com grande emoção.

Vivam os manos Sobral.

Salvador, redentor e …

Encantador.

 

Toni Erdmann

Março 6, 2017

03_30

Lá fui perder-me na sala do cinema. Toni Erdmann.

Ainda na bilheteira estava convencida que este filme tinha ganho o Óscar de melhor filme estrangeiro, mas não, foi O Apartamento, dizia-me com a assertividade habitual, a minha cúmplice da sétima arte.

Levava no espírito uma ideia, ia gostar de ver o filme.

Metáforas à parte, já não tenho grande paciência para as figuras de estilo, prefiro sentar-me a saborear o estilo da figura, Ines Conradi (Sandra Huller) e Winfried (Peter Simonischek) apresentam à bruta o contraste entre a besta e o bestial.

Trágico, confesso em Ruteoria, a atracção pela beleza do monstro.

Está tudo tão certo, para quem não cuida em ir ao Google, faço a devida chamada de atenção para Maren Aden, que co-produziu as mil e uma noites de Miguel Gomes.

Voltou e está perdoada.

Maren Aden, fez tudo para me fazer feliz, e conseguiu.

Filosofias à parte a felicidade está em viver a vida sem restrições de hipócritas moralidades.

Nesta verosimilhança senti-me traída pela utopia, afinal a realidade é o ideal que quero perseguir.

Nua.

É absurdo, mas afinal o falso é verdadeiro, o fingido genuíno, o disfarce, a mentira, a piada, o gesto, a traquinice, a ligeireza com que se põe e tira uma dentadura postiça, tudo são recursos humanos para as relações na vida.

Moral da história:

Qual moral?

Iluminações de uma Mulher Livre

Fevereiro 26, 2017

fullsizerender

Desta feita, os livros.

Iluminações de uma Mulher Livre é um título, uma espécie de emblema literário que só alguns livros conseguem suportar.

Samuel Pimenta é um autor premiado, um homem de grande mestria na conjugação das palavras, um artista criador de obras de arte.

Iluminações de uma Mulher Livre é um tratado sobre a humanidade. Não ousaria, sequer, fazer uma crítica literária, na minha Ruteoria, a experiência da leitura que esta obra me ofereceu, excedeu o género.

Como se cada palavra fosse escrita para mim.

Senti o cheiro, vi a cor da terra, não foi Isabel, a protagonista que me ficou na cabeça, eu é que entrei na cabeça de Isabel.

Tenho que confessar que já li muitos livros, conheço variadíssimos autores, tenho a experiência da leitura como parte de uma experiência de vida.

Eu sou os livros que li, não tenham dúvidas.

Mas Samuel Pimenta só pode ser ilusionista, naquela magia de às páginas tantas me ir convidando, destruindo as barreiras:

eu? fui escavando trincheiras, atirando-me para a vala comum.

Dirão os comentadores credenciados que é um autor de intervenção e uma obra feminista, quererão os partidos políticos conotá-lo com características que sirvam agendas reivindicativas, até por ventura movimentos religiosos vão virar o pagão testemunho num qualquer mandamento ou testamento.

É arte, estúpidos.

Quem melhor que os artistas para representar, retratar, transformar ?

Atirem a primeira pedra, pecadores.

Porque Samuel Pimenta agarra uma a uma, cada uma dessas pedras, para construir esta obra monumental.

Não querendo revelar nem desvendar, vou, embalando, cantarolando aos meus leitores: esta é mais bela reflexão artística contemporânea sobre o ser e o humano.

Acreditem.

Iluminações de uma Mulher Livre é a gruta de Olimpo.

O grito limpo, livre.

Livro, Samuel.

 

 


%d bloggers like this: