Uma mão cheia

Outubro 6, 2021

Se a arte me liberta, o rio sempre me devolveu em dobro ou triplo.

Depois de uma maré de pandemia, voltou a pirataria.

E lá estavam as musas sentadas na ilha dos amores.

Houveram abraços e discutiu-se se o barco ia para bombordo ou estibordo, direita ou esquerda, eis a velha questão.

Mundevidências diferentes de uma mesma realidade, eis a minha paixão.

Mas chegou o Capitão, o bom homem pulou a cerca e… à patrão, se pudesse…

Soltava as amarras.

Que Deus o guarde, pois é bondade o que senti em cada calo nas suas mãos.

Já as vizinhas estavam tangentes, de mão em mão fomos velejando, beijando a tabuada dos sete.

Quem diria, depois de uma pandemia, ver a sabedoria a ser igual, sempre a refilar, a pensar e repensar para tornar a pensar.

Tantas linhas cruzadas, cabos de boa esperança. Um grande amor por chegar na rapidez de uma mudança.

Vamos marinheira, que a maré vai cheia.

A Outra tágide, musa consorte evocou Tao e Cristo, cara ou coroa da brava timoneira de uma vida de trabalho pessoal.

Sempre a olhar para a frente, sempre na proa, Terra à vista, grita a Capitoa.

Aceitemos que os ventos mudaram, já não se cancelam as viagens.

Vamos navegando à vista, na maré das possibilidades

Uma coisa continua certa:

Sorte a minha neste feliz desembarque

Prada 2005-2021

Julho 30, 2021

Não consigo sair do bloqueio da escrita, vou rastejando como se escrevesse contra o tempo.

quero muito marcar para memória futura.

A Prada partiu ontem.

Deixa-me 16 anos de uma dedicação incontornável. 

Ela foi, e é, o lado certo da vida.

Dizem os ingleses que o exterior de um cavalo reflecte o interior do seu dono.

A Ruteoria? Os cães são exactamente iguais aos seus donos, quando envelhecem juntos ficam numa harmonia assustadora.

E isso explica-se pela dedicação do animal e não pelo egoísmo da dona. Falo por mim.

Há um entrega absoluta ao humano, uma rotina que cumprem com a vida, animal?

Obviamente que aprendi muito mais com a Prada do que tudo o que ela aprendeu comigo.Dei-lhe apenas as regras da humanidade, ou o sítio onde fazer as suas necessidades. Well done Rute.

A Prada ensinou-me o que é ser fiel, eu era a única para ela, exclusivamente de entre todos humanos do mundo apenas eu fui a sua pessoa, em toda a sua vida. 

Ser dona fica aquém, tutora é muito curto.

A Prada dedicou inteiramente a sua vida a mim, todos e cada um dos seus momentos foram para mim.

Não haverá homenagem maior do que este reconhecimento, o seu a seu dono, contas feitas em 16 anos foi este enorme ser, mínimo em tamanho e aparentemente frágil, aquele capaz de desvendar tantos e tantos mistérios da natureza.

Obrigada Pradicas, que grande privilégio o meu, o efémero é a eternidade.

Podes não ter conseguido transformar a humanidade, mas certamente tornaste esta, sempre tua, mais naturalmente animal.

Au au 

White Lines

Junho 12, 2020

Voltei ao seriado, mais uma vez pela mão de Alex Pina. Uma relação passional que mantenho com a Netflix. Dirá mais sobre a Netflix do que diz de mim.

Confesso que me arrebatou nos primeiros minutos:

Amodovar meets Kusturica pensei.

E não me enganei, houve até rasgos dos irmãos Cohen .

Fui vendo devagar, mesmo muito devagar.

Apaixonei-me por Zoe (Laura Haddock) quis dela cada segundo.

Uma paixão.

Um episódio por dia, para saborear todas as notas da personagem.

Uma espécie de one night stand para a vida.

Nuno Lopes, perdoem-me até os meus sentimentos, não me convenceu, rezei por Javier Bardem, mas isso sou eu, exigente.

Já Paulo Pires está bem, como sempre. Um outro desempenho claro, nem Banderas faria melhor. Ainda Rafael Morais outro português a fazer nos flashback de jovem Boxer (Nuno Lopes). 

Empatados nos galhardetes Ibéricos dentro do meu casting imaginário.

Axel (Collins) o anagrama de Alex (Pina) corresponde eventualmente à sua juventude nos anos 80, mas é Zoe como foi o Professor da Casa de Papel.

White Lines é sobre a liberdade, mas também é sobre a autoridade, sobre o poder e sobre o controlo, ou a falta dele.

Como se a Ilha (Ibiza) exercesse um magnetismo que nos convocasse todos (sim o espectador incluído) a uma perturbação emocional.

Há um desequilíbrio generalizado, onde nenhuma personagem, repito nenhuma personagem é equilibrada.

E é neste excesso que, na minha Ruteoria, White Lines peca. 

A ficção não nos dá uma bóia salva-vidas, e por isso perde-nos.

Mais uma vez a metáfora no título.

Podia ter sido Ibiza, Manchester, Alex Collins ou Zoe.

Isso mesmo.

A série que podia ter sido.

White Lines queria ser tudo, e por isso não chegou a ser nem um amor de Verão.

Como no Tinder, deslizei para direita e,

match, so what?

Lisboa

Abril 23, 2020

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Uma verdadeira dobra da natureza, disseste-me ontem.

Escrito e enviado no Instagram.

Fui ver. Enquanto caminhava pensei que estava tudo certo.

O tempo tinha resgatado ao espaço a sua quota, aquela parte improvável.

Numa passada firme fui empurrando a pedra montanha acima.

Absurdo.

Quando avistei o rio, vi realmente o teu silêncio ensurdecedor.

Parada.

Linda a meus pés, exibias ainda o rebuliço de sempre.

Eras tu, ainda grande.

eu?

Ovelha negra.

Sem vírgula, afinal.

Histórias de Lisboa

Junho 14, 2019

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Nas histórias de Lisboa, vemos tudo menos o texto. E nem é necessária a palavra dita para honrar a história contada.

Gentrificação passa a fazer página na História.

É certo que será uma encenação diferente, confesso que quase passei pelas brasas, mas o ritmo e a destreza dos actores manteve-me acordada.

É surpreendente a eficácia dos actores, a quantidade de personagens que desfilam sem perder a qualidade.

Não há comédia, tragédia nem género.

É pós-dramático.

Pela primeira vez assisti a uma encenação de teatro pós-dramático em Portugal.

O texto escrito e a narrativa clássica de conflito psicológico já não chegam para servir a arte teatral.

É físico. 

Esta espécie de encenação holística, que se socorre de todas as artes, a dança, o som, a imagem, a mímica, o circo e até a circunstancia é a mais que perfeita, para cumprir ousada tarefa.

É smart.

Talvez não seja fácil abandonar a zona de conforto do texto declamado e representado.

Na minha Ruteoria?

Sorte a nossa.

O Teatro Meridional criou um espectáculo excepcional contemporâneo, quebrou o tabu, fez bem, fez simples, fez para hoje, fez verdadeiro, contou uma história.

Era um vez….

….o teatro em 2019.

Bravo!

Neto de Moura

Março 4, 2019

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Contemplo a maldade do homem, indigna-me a competência do juiz.

Podia ficar pela facilidade do insulto, o convite ao processo, a vaidade da piada certeira, a perspicácia da paródia e a segurança da sátira.

Mas acrescentar número ao rebanho não torna o lobo diferente, vou vestir a pele ao bicho.

Se eu fosse o lobo mau…

Quanto mais cordeiros aparecessem a balir mais seriam as minhas hipóteses de aumentar os cordões à bolsa.

Neto de Moura não é parvo, aproveita a carneirada, e usa dos seus recursos jurídicos para seu belo proveito. 12 pontos.

Sela-se o acordo tácito, reconhecem o Juiz e os humoristas a riqueza do filão.

Iniciam todos a exploração e nós, espectadores bem humorados, a ajudar com a mão na obra gratuita, a fazermos todos render o peixe ao ladrão.

E continua o festival com o bandido na canção. 12 pontos para o cabrão.

Reconheço que Neto de Moura é muito bom a ser mau, sou ainda mera aprendiz.

Respeito um bom inimigo.

Inspiro-me na Maria da Fonte e vou atirar a primeira pedra.

Com a devida vénia, ao Meritíssimo.

Já chega de elogiar o menino.

Na minha Ruteoria estou-me nas tintas para o que o Neto de Moura pensa ou deixa de pensar sobre as mulheres ou sobre a casca da batata, não estou minimamente interessada se ele tem bons ou maus pensamentos sobre a violência doméstica, parece que estamos todos no recreio da democracia e ao invés de nos socorrermos das instâncias e processos próprios, como aliás fez o Juiz Neto de Moura, andamos aqui em picardia de parodiantes.

Peguem-se os touros pelos cornos, convoque-se a separação de poderes, e chamem-se os eleitos representantes à sua responsabilidade.

Desde o primeiro ao último deputado. O Governo e os partidos.

É violência, estúpidos!

E ponha-se o homem dos afectos a exercer a sua função como garante do regular funcionamento dos órgão do Estado, em vez de andar por aí aos beijinhos.

Citando Conan Osíris:

Quem mata quem?

Sala de chuto

Dezembro 13, 2018

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Chego mais cedo ao encontro. Alimento o vício.

Já em ressaca abraço o meu dealer.

Pergunto-lhe pela Rosa e peço-lhe a droga.

Ele mostra-me as novidades, o produto que tento negociar.

Não somos amigos. Dependo dele. Confio.

Tremem-me as mãos só de pegar nas folhas prensadas.

Queria comprar tudo, ele ajuda-me. Fico-me pelas três, indispensáveis, doses.

Relembro-lhe que ainda me falta levar o do “outro”.

Vou consumir tudo à bruta.

Desço as escadas para a sala e ofereço-me ao social possível, com o jargão de agarrada.

À Rosa agradeço as passas.

O “outro” chega a horas e faz logo uns riscos. Começa a falar da sua viagem. Alucinado. Fala dos jogos e da maldade. Perverso continua nas linhas.

Já há mais um Universo.

A Rosa dá um cheiro, e ele avança para a overdose.

Fala de tatuagens e cogumelos. Hiroshima. Meu amor.

Bate-me forte.

Estico-lhe o braço para o garrote.

Digo-lhe que prefiro, dele, o chuto.

Silêncio. Vazio.

Vou outra vez à bancada e trago breves notas sobre ciência, o medo e as ligações.

Drogas.

Sim, eu.

E o “outro”?

Snob

The Wife

Novembro 8, 2018

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Preciso do cinema. Na ficção fico quando acredito. Jonathan Pryce é The Wife.

Um filme medíocre, digo eu, com uma história engraçada para ser vista nas páginas de um livro.

O grande ecrã pede muito mais, Jonathan Pryce deu pérolas a porcos.

Glenn, close.

Ficou aquém.

Não sou grande admiradora, seduz-me sempre mas nunca me apaixona.

Problema meu.

Uma coisa é certa, no meio de tantos actos falhados, entreguei-me completamente a Pryce.

Já o tinha visto em palco no My Fair Lady, e claro arrebatou-me na tela em Carrington.

Sou sincera, este actor foi tão brilhante que iluminou, aos meus olhos, a fraca performance de Glenn Close.

Ó senhores retrógrados de Hollywood nem precisam de abrir a boca e dar-lhe o boneco.

Jonathan Pryce deu nozes a quem não tem dentes.

Nuts!

Naipe Out

Novembro 3, 2018

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Eis-me aqui curvada perante o dilema.

Em conflito com o interesse.

Esperei pelo último naipe do baralho, na esperança de poder vir aqui criticar o espectáculo, falar da importância do acto falhado, da experiência, do caminho e mais umas balelas que dizemos aos mais novos.

Que se aprende com os erros. Pensei mandar o recado.

Pois eu aprendi.

Na minha preconceituosa Ruteoria, Naipe Out tinha tudo para ser arriscado.

Um espaço arruinado, uma produção diferente, um horário incerto, um cartaz criativo, mas graças ao artista, aconteceu a magia.

Vinny o mágico foi arrebatador, transformou o emancipado espectador.

Sim, senhor.

Este é um espectáculo para público esclarecido e destemido.

O mágico elevou a fasquia

Levou-nos ao máximo, onde a ilusão atinge o limite. – o tempo.

Exagero meu?

Naipe Out é avant-garde rompe com a tradicional arte da magia.

Exagero sim.

A rapidez, o experimentalismo, a estética e radicalismo da performance, pertencem já a um outro tempo. Acreditem.

É um novo movimento artístico.

Posso estar muito enganada, mas certa de que vou pagar para ver.

Vinny o Mágico fez nascer naquele espaço da arte um novo conceito, o time specific.

Absolutamente colossal, sublime.

Parabéns Vinny.

Privilégio meu.

Bolsonaro

Outubro 29, 2018

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Bolsonaro é o Presidente do Brasil.

Alguém tem que defender o animal político, seja Ruteorias.

Explico.

A democracia não se esgota num acto eleitoral, nem na pessoa que exerce o cargo para o qual foi eleita.

Relembro às mentes mais brilhantes a Teoria da Relatividade, saberão com toda a propriedade, que o tempo não é igual para todos, admirem-se os fãs do paradoxo dos gémeos:

a democracia também varia com a gravidade a velocidade e o espaço.

Mantenho o que disse aqui e proponho um upgrade 2018.

A democracia é relativa.

Recusar nomear Bolsonaro foi recusar o exercício de um direito livre e esclarecido.

Foi a inércia, e foi essa inércia que deu a vitória a Bolsonaro.

A democracia é relativa.

Todos nós, indignados, partilhámos em rede #elenão

A maioria votante brasileira, na sua dignidade, afinal foi absoluta, não votou Haddad.

Indignem-se agora, perguntem-se, como?

A democracia é relativa.

Eu?

#eunão


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